Na imensidão dos séculos que se escondem sob o manto da névoa medieval, há um sussurro que persiste, tênue como o hálito do vento nas fendas das pedras antigas. É a melodia da flauta, instrumento humilde e mágico, tecendo entre os séculos VIII e XV uma teia sonora que embalou reis e mendigos, monges e trovadores, guerreiros e enamorados. A flauta medieval não é apenas pau e fôlego; é a voz da alma coletiva de uma era em que o sagrado e o profano dançavam entre si como duas serpentes entrelaçadas na vara de Asclépio.
Antes de ser arte, a flauta foi instinto. O homem primitivo, ao ouvir o vento atravessando os caniços das margens dos rios, descobriu na natureza o primeiro maestro. Na Idade Média, esse diálogo com o mundo vegetal se cristalizou em instrumentos feitos de madeira nobre — como o teixo ou o olmo —, ou de bambus cuidadosamente talhados, cujas paredes finas vibravam como as asas de uma libélula. A flauta transversal, trazida das terras árabes e bizantinas, ganhou as cortes europeias com um perfil mais refinado, enquanto a flauta doce, de bico simples e voz doce, povoou as igrejas e as praças de vilarejos.
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