Virginia Woolf, senhora das letras e espírito indomável das letras modernistas, erige-se, sem contestação, como uma das mais resplandecentes figuras da literatura do século XX. Entre os muitos frutos de sua pena iluminada, "Orlando", publicado no longínquo ano de mil novecentos e vinte e oito, cintila com especial encanto e audácia. Não se trata apenas de um romance, mas de uma travessia temporal e existencial, onde a autora, com mão firme e mente penetrante, une os véus da fantasia, os abismos da filosofia e os espelhos da introspecção com arte inigualável, como quem borda, em seda fina, as complexidades do ser.
“Orlando”, essa obra de engenho e alma vívida, brota não apenas da fértil imaginação de Virginia Woolf, mas também das profundezas de sua afeição pela notável Vita Sackville-West — escritora de pena refinada e dama de estirpe aristocrática, cuja presença influiu como musa e confidente. Orlando, personagem que transcende séculos e sexos, é, em muitos matizes, um tributo velado e amoroso à própria Vita, refletida como num espelho encantado. Ao optar pela via da biografia ficcional — gênero híbrido entre o fato e o devaneio — Woolf liberta-se das amarras da narrativa histórica convencional, permitindo-se sondar, com argúcia poética, as sutilezas da existência, as metamorfoses da identidade e os labirintos da alma, como só a verdadeira arte pode ousar fazê-lo.
.png)

0 Comentários